quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Mármore



A trágica derrocada na pedreira de Borba trouxe à boca dos portugueses a palavra “mármore”. Será que os nossos decisores políticos, os nossos jornalistas e comentadores de serviço e o cidadão comum sabem o que é o mármore?
Aproveitemos então a triste oportunidade para falar desta rocha ou desta pedra, como preferirem.
Muito antes de existir a ciência que dá pelo nome de Geologia e muito antes dos geólogos compreenderem e descreverem o metamorfismo, a palavra latina “marmor” já figurava entre os romanos 
Ao tempo de Agricola, o médico alemão, de nome Georgius Bauer (1495-1555), que reviu as classificações do romano Plínio, o Velho, (23-79), do persa Avicena (980-1037) e do dominicano alemão Alberto Magno (1193.1280), mármore, era toda a pedra susceptível de ser usada em cantaria. Eram “mármores” o calcário, o alabastro, o basalto (“mármore negro”, como lhe chamou Plínio), o arenito fino do “Buntsandstein” (ou Triásico germânico) e o mármore propriamente dito (o da pedreira de Borba, agora tão falada). 
Mesmo hoje, entre nós e em termos comerciais, no sector das pedras ornamentais, ainda se classificam como mármores as rochas que permitem o corte e o polimento
Para falarmos de mármore temos, primeiro, de falar de calcário. Isto porque, na generalidade e em traços muito gerais, o mármore não é mais do que calcário transformado (metamorfizado) por efeito de aquecimento e compressão sofridos no interior de uma cadeia de montanhas em formação.
Para o geólogo, mármore é uma rocha resultante do metamorfismo de um calcário. Para o construtor civil é uma da muitas rochas ornamentais existentes no mercado.
- E o que é e como se forma o calcário? – Pergunta quem não sabe.
A imensa maioria dos calcários, como os que temos aqui no Cretácico de Lisboa e Pero Pinheiro (o conhecido lioz), e no Jurássico das Serras d’Aire e Candeeiros, Arrábida e do Barrocal algarvio, é gerado em mares muito pouco profundos das latitudes intertropicais, de águas límpidas e mornas, como por exemplo os das Caraíbas do Golfo Pérsico e da Grande Barreira de Coral, no nordeste australiano (Queensland). Estes mares são propícios à formação de corais e de uma grande variedade de invertebrados (bivalves, gastrópodes, ouriços e estrelas do mar, crustáceos, briozoários, foraminíferos e outros) construtores de esqueletos de natureza calcária, e se certas algas, ditas coralígenas, igualmente construtoras de esqueletos de natureza calcária. 
Na grande maioria dos casos, é a acumulação dos restos esqueléticos (inteiros, fragmentados e/ou pulverizados) deste organismos, todos eles formados por carbonato de cálcio (aragonite e/ou calcite) que, depois de intensamente compactados e consolidados, dá origem ao calcário.
Foi assim no passado e é o que está a acontecer nos dias de hoje nos citados mares quentes da Terra?
Um parêntesis para dizer que aragonite e calcite são duas formas (ou dois minerais) diferente de carbonato de cálcio, sendo que a segunda é mais estável, razão pela qual, com o passar do tempo, a aragonite se transforma em calcite, o mineral essencial do calcário, dito calcítico, e do mármore que, igualmente, podemos dizer calcítico. Isto porque também há mármores dolomíticos.
Para falarmos do mármore alentejano (grande riqueza nacional no sector da Indústria extractiva), temos de recuar a um oceano antigo, que aqui existiu há mais de três centenas de milhões de anos, e admitir que houve, neste local do território, mas a uma latitude mais baixa (como a dos actuais mares tropicais), um mar litoral propício à proliferação de organismos, bem diferentes dos actuais, mas todos eles construtores de esqueletos de natureza calcária. 
Foi durante a formação da grande cadeia de montanhas (orogenia varisca ou hercínica de há 380 a 280 milhões de anos, no final da era paleozóica) que, entre outras rochas, deu origem aos xistos, grauvaques, quartzitos e granitos que formam a ossatura da Península Ibérica, que nasceu este mármore, por transformação do dito calcário. 
Numa descrição mais pormenorizada podemos dizer que o mármore calcítico, como o que temos em Estremoz-Borba-Vila Viçosa, os de Viana do Alentejo ou os de Trigaches tem estrutura granoblástica, isto é, apresenta grãos minerais (calcite) aproximadamente todos do mesmo tamanho (equidimensionais) e sem orientação. 
Menos importantes, mas contemporâneos e tendo sofrido as mesmas vicissitudes, temos, ainda, no Alentejo, os mármores de Sousel, Elvas, Escoural, Alvito e Ficalho. Merece, ainda, referência o mármore branco de Vimioso (esgotado), em Santo Adrião, no Nordeste transmontano.
Menos comum, o mármore dolomítico resultou do metamorfismo de dolomitos (rochas sedimentares essencialmente formadas pelo mineral dolomite, o carbonato de cálcio e magnésio). Como mármore dolomítico merce destaque a chamada “pedra cascável”, subjacente aos mármores calcíticos de Estremoz-Borba-Vila Viçosa.
Com nomes consagrados na indústria e no comércio nacionais destacam-se os mármores:
- na região de Vila Viçosa: Branco Estatuária, Branco Anilado, Creme Lagoa, Rosa Aurora e Rosa Venado.
- na região de Estremoz: Branco Corrente, Branco Rosado e Creme Venado.
- na região de Borba: Ruivina Escuro, Creme do Mouro, Rosa de Rosal e Rosa Venado:
- na região de Escoural: Verde Escoural.
- na região de Viana do Alentejo: Verde Viana.
- na região de Trigaches (Beja): Cinzento Anegrado, Cinzento Claro
- na região de Serpa: Verde Ficalho
Notas:
Diz-se marmoreado ou marmóreo, o que lembra o mármore, na cor, no frio, na insensibilidade.
Marmorite é um produto fabricado, destinado pavimentos e revestimento de paredes. Consiste, geralmente, numa mistura de fragmentos de rochas diversas (mármore, calcário e outras) aglutinados por um cimento. Uma vez seco, é serrado, polido e usado em pavimentos, à semelhança das rochas ornamentais.
Lisboa, 25 de Novembro de 2018

Hora da adivinha geológica 3


Chegou a hora de mais uma adivinha geológica. Confere o resultado e o vencedor da adivinha anterior e tenta a tua sorte neste novo desafio.


terça-feira, 13 de novembro de 2018

"Um passado catastrófico" - Terra viva 4




Vestígios de grandes derrames de lava em todo o planeta são evidências de um passado em que a atividade vulcânica foi muito mais abundante e extensa. O impacto ambiental, climático e geográfico destas gigantescas erupções produziram mudanças profundas que transformaram a Terra para sempre. Neste documentário podemos visionar paisagens vulcânicas da Islândia como colunas de basalto, cones vulcânicos, campos de lava, mantos de lava, escoadas lávicas, praias de areia negra (sedimentar resultante do basalto) e até túneis provocados pelo avanço do fluxo de lavas.

domingo, 11 de novembro de 2018

A Terra ‘tremeu’ - Baixar, Proteger e Aguardar

A Terra ´tremeu´ - Baixar, Proteger e Aguardar

A terra ‘tremeu’ a 5 de novembro, exatamente às 11h05, e a Câmara Municipal de Odivelas associou-se, mais uma vez, à Autoridade Nacional de Proteção Civil para promover o exercício público de sensibilização para o risco sísmico, que aconteceu a nível nacional.
De forma a marcar a participação da Autarquia, o Vereador da Proteção Civil, João Paulo António, marcou presença na Escola Básica António Maria Bravo, em Odivelas, onde cerca de 200 crianças participaram no exercício nacional e, ao toque, baixaram-se, protegeram-se e aguardaram as instruções para sair em segurança do edifício. O sismo não foi, felizmente, verdadeiro, mas serviu para capacitar os participantes das medidas preventivas e dos comportamentos de autoproteção a adotar antes, durante e depois de um sismo.

A acompanhar o Vereador, estiveram o Comandante da Esquadra de Odivelas da PSP, Tiago André, o Comandante dos Bombeiros Voluntários de Odivelas, Fernando Santos, e a Coordenadora da escola, Helena Gonçalves.

domingo, 4 de novembro de 2018

Artigo "Rocha"

REVISTA DE CIÊNCIA ELEMENTAR - CASA DAS CIÊNCIAS Vol6/N2

Rocha
A. M. Galopim de Carvalho
Universidade de Lisboa

O que é importante dizer sobre as rochas
Rochas e pedras são a mesma coisa? Praticamente, a resposta é sim. Pedra é aquilo que se apanha do chão para dar uma pedrada.
Qualquer pessoa, mesmo a menos letrada, dirá que as pedras:

  • não são fabricadas ou feitas por gente (a ciência diz que são entidades naturais);
  • que não se amolgam (a ciência diz que são rígidas);
  • que geralmente não se esboroam nem se esfarela (a ciência diz que são coesas);
  • que fazem mossa onde quer que batam (a ciência diz que são duras).
Para o cidadão comum, pedra (do grego pétra) é, pois, uma entidade natural, rígida, coesa e dura, que se apanha do chão.

Apanhamos uma pedra do chão, mas, quando estudamos, falamos quase sempre de rochas. Num modo de falar corrente, podemos dizer que as pedras são bocados de rocha.
Todos falamos de rocha como sinónimo de pedra, com base num conhecimento comum, empírico, vulgar, ligado à experiência quotidiana mesmo do mais iletrado dos cidadãos. Dizemos rochedo quando o afloramento de rocha é grande e apelidamos de rochoso um terreno com a rocha à vista. Rocha é um galicismo que, entre nós, se sobrepôs ao termo “roca”, bem mais antigo, talvez pré-romano. Cabo da Roca, ou “Focinho da Roca” no dizer dos homens do mar, deve o seu nome a esta versão arcaica da palavra rocha.
O conceito atual de rocha e os vários conhecimentos com elas relacionados percorreram uma caminhada tão longa quanto a do Homo sapiens, caminhada de que temos testemunhos na Pré-história e variadíssimos relatos escritos desde a Antiguidade.
Na sua gíria própria, entendível entre pares, os profissionais falam de rochas, dizendo que são sistemas químicos, mono ou polifásicos (ou seja, com um ou mais minerais), resultantes do equilíbrio termodinâmico atingido pelos seus constituintes em determinados ambientes. Entendendo-se por constituintes os elementos químicos incluídos nos respetivos minerais.
Por outras palavras, acessíveis ao comum das gentes, pode, então, dizer-se que as rochas são corpos naturais formados por associações mais ou menos estáveis de minerais compatíveis entre si e com o ambiente onde foram gerados e que são elas, as rochas, que constituem a capa rígida da Terra que, por essa razão, recebeu o nome de litosfera (FIGURA 1).


FIGURA 1. Modelado Granítico na Serra da Estrela. (fonte: banco de imagens da Casa das Ciências)

Antes de prosseguir esclareça-se que, no jargão próprio da mineralogia e da geoquímica, os minerais são considerados fases, no sentido físico-químico da palavra. Com efeito, neste sentido, uma fase é uma porção de matéria química e estruturalmente homogénea, e, uma qualquer espécie mineral, é isso mesmo.

Por convenção na sistemática em sedimentologia, entre as rochas sedimentares cabem certos materiais não consolidados como os barros, as areias soltas, as cascalheiras e ainda outros, de natureza não mineral, como os carvões fósseis e o petróleo (óleo de pedra). Chamar rochas ou pedras a estes materiais, às vezes tão afastados da imagem vulgar de “coisa dura, rígida e coesa”, decorre do conceito geológico de rocha, no qual se inclui o modo de ocorrência e o respetivo processo de formação (petrogénese).
A mecânica das rochas (disciplina que estuda certas propriedades das rochas como resistência ao esmagamento, à tração, à torção, à flexão, porosidade, permeabilidade e outras) define-as como entidades sempre rígidas e coesas e duras, como também se diz, vulgarmente, com capacidade de suportar cargas e que, na eventualidade de terem de ser escavadas ou removidas, há que usar tecnologias com explosivos. Este conceito corresponde, aliás, à ideia mais divulgada de rocha, como atrás se referiu. É o bedrock dos autores ingleses.


FIGURA 2. Processo de meteorização física, essencialmente por corrosão eólica, em rochas sedimentares (arenitos). (fonte: banco de imagens da Casa das Ciências)

Além das muitas que conhecemos na Terra, já estudámos rochas do nosso satélite natural, nomeadamente, basaltos e anortositos trazidos da sua superfície. Mercúrio, Vénus e Marte são também planetas rochosos e igualmente rochosos ou pedregosos são ainda os núcleos dos cometas e muitos dos asteroides, de que temos conhecimento pelos meteoritos caídos na Terra.
Quando se apelidam as rochas de magmáticas, sedimentares (FIGURA 2) ou metamórficas não se está apenas a rotulá-las para efeitos de arrumo ou arquivo, muito menos se estão a criar novos vocábulos para sobrecarga dos estudantes ou do cidadão em geral. Estes adjetivos acrescentados à palavra rocha informam, de imediato, sobre a sua origem:
  • magmática ou sedimentar, qualquer delas em resultado de processos naturais fáceis de entender;
  • metamórfica, em consequência de um outro processo, muito menos ao alcance da vivência do vulgo, mas que se explica sem grandes dificuldades.
Apelidam-se de metamórficas as rochas que, posteriormente a uma primeira formação, como magmáticas ou sedimentares, foram submetidas a pressões e/ou a temperaturas, no interior da crosta, que lhes modificaram, a composição e/ou a textura.
Foi através do estudo das rochas que desvendámos o essencial dos acontecimentos geológicos que marcaram a história deste «Planeta Azul», no qual a vida encontrou condições para despertar e onde evoluiu ao ponto de se interrogar sobre essa mesma história.
Os conhecimentos diretos, de que hoje dispomos, relativos às rochas da Terra limitam-se aos que se obtêm pelo estudo das que afloram à superfície, das recolhidas em dragagens nos fundos marinhos e das retiradas da profundidade, quer em minas, quer através de sondagens. Esta profundidade, que não excede 3 km, no primeiro caso, e 11 km, no segundo (na península de Kola), pode considerar-se insuficiente, se comparada com as três a quatro dezenas de quilómetros de espessura média da crosta continental.
É já muito o conhecimento que temos desta capa (a crosta ou crusta, como alguns dizem e escrevem) mais superficial do nosso planeta. Temo-lo através das rochas que constantemente vemos e pisamos, muitas delas geradas em zonas profundas, trazidas à superfície pelos enrugamentos de origem tectónica, geradores das montanhas, e, subsequentemente, postas a descoberto pela erosão.
Outras rochas próprias de muito maiores profundidades, inclusive do manto inferior, como é o caso dos xenocristais e dos xenólitos (do grego xenos, estranho, e lithos, pedra), isto é, cristais e fragmentos de materiais líticos gerados nessas regiões e que ascendem à superfície, na sequência de atividade vulcânica, englobados ou encravados nos produtos magmáticos que ali se formaram ou por ali passaram. Na ilha da Madeira, por exemplo, são frequentes os xenólitos olivínicos que ascenderam até à superfície no seio das lavas envolvidas no processo vulcânico que originou esta e muitas outras ilhas.
As rochas a que temos acesso mais ou menos direto representam uma parcela importante da diferenciação da Terra e, à semelhança da água, do ar e dos seres vivos são o resultado de imensas transformações, numa vasta e complexa rede de inter-relações ocorridas ao longo dos tempos neste «planeta vivo», pleno ainda de energia interna (sob a forma de calor) a que se adiciona toda a que lhe chega do exterior, isto é, a radiação solar. Como escreveu Maurice Mattauer, “as pedras nascem, vivem e morrem; como nós; elas têm uma idade e uma história”.
Petrologia e litologia são duas disciplinas que estudam as rochas ou as pedras. Se bem que os étimos petra (latim) e lithos (grego) sejam sinónimos, petrologia e litologia encerram conceitos diferentes, ainda que relacionados entre si.

  • A petrologia é um ramo da geologia com dimensão de ciência, de vastos recursos nos campos da física, da química e, naturalmente, também, da matemática, em busca do conhecimento da origem, natureza, constituição e evolução da Terra no âmbito do Sistema Solar e do Universo.
  • A litologia, outro ramo da geologia, é habitualmente entendida como a disciplina que estuda as rochas num campo prático. Serve a geologia de engenharia, tendo em vista a implantação de grandes edifícios e outras obras volumosas, cujas fundações exigem o conhecimento dos terrenos. A litologia dá igualmente respostas à pedologia (o estudo dos solos) e à indústria extrativa de rochas ornamentais, usadas na arquitetura, na cantaria ou na estatuária, e de rochas industriais, exploradas como importantes matérias-primas para a construção civil, a cerâmica, o vidro, o cimento, a cal e a indústria química.





Resposta à da Adivinha Geológica 4